A obra como uma indústria

A obra como uma indústria

in Techné

Em entrevista concedia à Techné o Engenheiro Carlos Schettert relativiza a situação atual da construção civil de escassez de mão de obra. Para ele, essa não é – ou pelo menos não deve ser – a maior preo­cupação do setor. A principal lição que toda a cadeia da construção deve aprender neste momento de grande crescimento é o planejamento.

Segundo Schettert o futuro da construção no Brasil será a almejada montagem no canteiro. Por enquanto, o engenheiro analisa que estamos na fase de desenvolvimento industrial, ainda tornando custos de sistemas industrializados compatíveis com o mercado. Aquele conceito bem conhecido de que obras na Europa ou nos Estados Unidos gastavam mais tempo em projeto e planejamento, enquanto no Brasil era o contrário, “já virou lenda”, conta Schettert. Hoje, não é admissível improvisação e retrabalho. Outros conceitos, como desempenho, sustentabilidade e coordenação modular, também foram discutidos pelo engenheiro na entrevista. Seguem alguns excertos da conversa:

A logística das obras ainda segue um padrão artesanal. Como é possível melhorar esse aspecto?
Repensando a obra como uma indústria. Temos que investir em equipamento, conceber um planejamento do canteiro, do transporte interno e dos processos produtivos, aproximando a cadeia produtiva, que é parte integrante. Utilizo ferramentas como Just in Time e a empresa [fornecedora] como parceira. Por exemplo, não uso mais lata de tinta, e sim um saco plástico com volume adequado e entregue no tempo adequado para cobrir determinado ambiente. Assim, elimino o desperdício, além do problema do lixo tóxico.

(…)

Sua construtora vem sentido a necessidade de incorporar processos mais industrializados?
A industrialização tem que ser um conceito genérico, como um processo produtivo bem desenhado. Posso citar exemplos de casos clássicos, como armadura dobrada, até processos mais elaborados como kanban, que é uma ficha em que se desenha a alvenaria, o número certo de blocos. O operário segue a lista, recebe a quantidade certa de material, e não há desperdício. Começa, assim, uma redução significativa das perdas, do tempo, do retrabalho. A industrialização sempre vai agregar valor para as empresas: diretamente, pelos resultados práticos, ou indiretamente, como um conceito a dar resultado no futuro.

(…)

Como equilibrar custo e desempenho em um empreendimento?
Desempenho deve ser pré-requisito. A partir dele, deve-se buscar custos competitivos, e, consequentemente, os processos que melhor se ajustem. Desempenho é primordial, não se admite mais o custo pós-obra. Então, são necessários produtos e processos com desempenho, para que o cliente final fique satisfeito. A esmagadora maioria das pessoas que compram um imóvel está fazendo a compra de sua vida. Esse produto tem que apresentar bom desempenho. Não se pode fazer, em nome da velocidade ou da demanda extraordinária, algo que não tenha desempenho.

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Quais são os gargalos técnicos da construção atual? O que precisa ser atacado com maior urgência?
Hoje nosso maior problema é a aprovação de projetos. Quando começou essa demanda extraordinária de obras, os órgãos e concessionárias que aprovam os projetos não cresceram na mesma proporção que nós, eles ainda contam com a mesma estrutura. Um projeto que era aprovado em seis meses, hoje leva um ano; uma licença ambiental que saía em 90 dias hoje também leva mais de um ano. E nós multiplicamos por dez nossa capacidade produtiva.

E na produção, quais as dificuldades?
Além do gargalo da mão de obra, há um gargalo em alguns insumos, mas algumas fábricas estão se ajustando. No passado recente, o cimento e o aço subiram, começamos a importar, e a recessão do mercado internacional favoreceu a importação, pois está sobrando material no exterior. Um terceiro gargalo são os repasses bancários. A velocidade com que nós construímos e realizamos processos de transferência de contrato com os usuários está maior que a capacidade dos bancos de processá-las. Quando o cliente vai assinar o contrato, o banco leva muito tempo. É inadmissível.

(…)

A construtora já sente uma demanda dos compradores para que haja sistemas ou ações sustentáveis nos novos empreendimentos? Qual é a maior procura?
Vejo uma evolução. É preciso que comecemos a pensar sistemicamente no nosso envolvimento com o meio ambiente, estamos envolvidos no processo ambiental como um todo. Isso vai desde a concepção do projeto ao resíduo final. Significa não só aproveitar a água de chuva em reservatórios separados, mas implementar sistemas factíveis com os conceitos de sustentabilidade. Se um terreno não propicia certo sistema, não tem sentido aplicá-lo. Nossos projetos, nossa legislação, nossa exigência e cultura têm que evoluir paralelamente.

E em relação aos clientes, eles já procuram por empreendimentos que apresentem ações sustentáveis?
No ano passado, quando assistimos a grandes catástrofes em todo o planeta, houve um bombardeio na mídia sobre a exigência e conscientização da população como um todo. Obviamente, começamos a perceber que o processo, como vem sendo feito, precisa evoluir, para que possamos conviver no meio ambiente. Essa evolução passa desde o conceito mais radical ao mais tolerante. Estamos buscando um equilíbrio adequado para que possamos potencializar nossas reservas com desenvolvimento humano. O assunto é amplo e complexo, mas é indispensável e urgente. Nas obras de interesse social, a exigência é menor, mas deveria haver uma conscientização dos órgãos registradores, dos órgãos produtores, das empresas e fornecedores.

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Comentários ( 2 )

  • Erin Sousa

    Concordo com ele, eu acho que antes de realizar uma obra tem que planejar tudo e também verificar quais são as melhores soluções sustentáveis para usar na obra.

  • Antonio

    É realmente imprecindivel que o planejamento deve vi em primeiro lugar e cada detalhe deve ser pensado antes de por a mão na massa pois a improvisação acaretará retrabalho

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