Vanderley John sobre a Construção Civil no Brasil: Quase Insustentável

Vanderley John sobre a Construção Civil no Brasil: Quase Insustentável

Na edição de Setembro da revista Techné, que aqui já referimos, inclui uma excelente entrevista com o Prof. Vanderley John da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo onde este alerta para o greenwashing, denuncia um mercado de venda de selos e critica o carater artesanal da produção na construção. Reproduzimos partes da entrevista abaixo, com a recomendação que se siga o link colocado no final do texto para ler a matéria completa.

Na construção, onde o greenwashing se encontra?

Há muitos selos cujos significados não conhecemos. Estão começando a proliferar selos de materiais, e existirão cada vez mais. As pessoas compram com selo porque, por um lado, querem um indicativo de que aquele produto atende melhor ao problema de sustentabilidade. Por outro lado, muita gente compra porque quer ser percebida como uma pessoa que se preocupa com sustentabilidade. Existem até selos do tipo “amigo do meio ambiente” que têm um critério muito objetivo e inquestionável: você paga, você leva. (…)

No que a construção vem afetando o ambiente, e como ela pode contribuir?

No Brasil, aproximadamente metade da extração de matérias-primas não renováveis acaba na construção. As obras são muito intensivas em uso de materiais. A geração de resíduos na construção está bem maior do que resíduos de lixo urbano, estamos demolindo mais e construindo mais. No Brasil, a construção é o setor industrial que mais gera resíduos. Por exemplo, o aço utilizado gerou resíduos também na fábrica, da mesma forma o alumínio, e assim por diante. De cada 1 m³ de madeira utilizado, outro 1 m³ ficou aos pedaços, para trás.

Já existe uma garantia em relação ao fornecedor de materiais, uma certificação ou selo?

Eu não acredito que selo tenha um papel relevante na promoção da sustentabilidade de um país em desenvolvimento. Não existe nenhuma demonstração no mundo de que qualquer selo melhore o mercado. O que melhora o mercado é política pública, política setorial de médio prazo, consistente, com metas aplicadas a toda a construção. Em tese, os selos deveriam identificar produtos muito mais ecoeficientes que outros, mas alguns não o fazem. Além disso, os selos de edifícios se aplicam a obras grandes, corporativas etc., que representam uma parcela minúscula da construção brasileira e são tão sofisticadas e diferenciadas, que pouco inspiram outras. Uma solução para um prédio de US$ 100 milhões não é transferida para um prédio de escritórios de quatro pisos em uma cidade média. (…)

Não há muita compatibilidade entre a realidade  do Brasil e Europa, Estados Unidos. Até onde os modelos importados  de selo funcionam?

(…)  A sustentabilidade tem problemas globais, mas as soluções têm que ser localmente adequadas. No Brasil, a opção para diminuir a poluição dos automóveis é o uso do etanol, e nos Estados Unidos é o carro elétrico. Mas em São Paulo há prédios que, para se certificar, colocam tomadas para carros elétricos, que não existem. Fazem isso porque é um ponto barato. O problema das certificações é que elas precisam ser adequadas não só à realidade local mas às estratégias selecionadas para o país.

Há outros exemplos de soluções importadas que não funcionam?

Muitas pessoas colocam estacionamento de bicicletas mesmo que isso não faça sentido. Em Boston funciona, mas não na Cidade do México nem em São Paulo, que é quente e chuvosa no verão, não é plana e não tem ciclovia. Mas é um ponto barato, e a cidade está cheia de estacionamentos de bicicletas vazios. Isso é eticamente inaceitável. (…)

Há sistemas alternativos de geração de energia mais eficientes? Vale a pena adotar sistemas de aquecimento solar em edifícios habitacionais e casas?

Existe um grande exagero quando se fala nos benefícios econômicos pela adoção de aquecedores solares para população de baixa renda, parcialmente porque a tarifa elétrica da baixa renda é fortemente subsidiada. Porém, em muitas regiões é relevante. Do ponto de vista ambiental, não se reduz muito a emissão de CO2, mas se economiza investimento em geração de energia. Um chuveiro de R$ 24 pode custar US$ 2 mil em investimento em geração de energia para o governo. Faz sentido o uso de energia solar nos locais onde é necessária água quente. No Norte e Nordeste, talvez água quente não seja prioritário; no Sudeste é importante. Há problemas também para se instalar o aquecedor solar em edifícios multifamiliares, particularmente na integração com a companhia de água. (…)

Projetos que adotam conceitos de sustentabilidade ficam mais caros?

Sustentabilidade é um equilíbrio entre impacto ambiental, impacto social e impacto econômico. Se for economicamente inviável, não é sustentável. Pode ser ecoeficiente, verde, mas o compromisso de sustentabilidade em cada obra é: o que se pode fazer dentro do orçamento. Sempre é possível fazer muita coisa dentro do orçamento, como reduzir desperdício em obra. O SindusCon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo) mostrou que gestão de resíduos em canteiro baixa o custo da obra. Uma confusão vem do conceito de edifícios verdes, no qual não se preocupa com o aspecto social e o econômico, só é green, além de certificar soluções muito avançadas, que se destacam e são bastante diferentes. Construção sustentável sempre cabe no orçamento; se não cabe, não é sustentável. (…)

Qual é a maior dificuldade em relação à escolha de materiais? É saber a procedência?

Em primeiro lugar, ninguém coloca na equação a questão da informalidade, da procedência, da qualidade. Há telhas em manuais de meio ambiente que não resistem à água ou ao sol. São produtos reais no mercado. Mas, como elas são recicladas, entram em qualquer lista de certificação, porque material reciclado é quase sagrado. Isso é deprimente. E pessoas gastam muito mais para utilizar esses produtos, recomendado por um especialista em green building, pago pelo Estado. A única forma de selecionar materiais e soluções construtivas é fazer análise do ciclo de vida, e, para isso, é necessário fazer uma base de dados. (…)

Parece que sempre o setor da construção civil precisa de muitos primeiros passos, muita organização básica. Você vê desta forma?

Estou falando de coisas “picadas”, mas quando se junta tudo forma-se uma estratégia. Começa mudando a mentalidade das lideranças, depois a mentalidade de outras pessoas, e em certo tempo isso é incorporado no dia a dia da empresa. Fazemos sem nos dar conta. Conversando com outros setores, acho que o setor da construção é o que está discutindo mais a sustentabilidade. As tarefas serão grandes para todos nós, mas é uma oportunidade. E devemos começar a valorizar a criatividade de engenheiros. A criatividade está segregada nos setores de marketing e publicidade, e ela terá que vir para a engenharia. São oportunidades. Um dos melhores aspectos da sustentabilidade é que, embora haja várias maneiras de se ganhar a vida, algumas delas dão orgulho à pessoa.

entrevista completa aqui (necessário cadastramento)

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