Eco-consumo: armadilha moral
Os resultados de um interessante estudo desenvolvido na Universidade de Toronto, no Canadá, revelam que os consumidores de produtos “verdes” tendem a adotar comportamentos menos éticos em outras atividades se comparados com consumidores tradicionais.
Estas conclusões foram obtidas com o recurso a jogos e simulações de situações reais encenados com 150 estudantes universitários. Um dos experimentos demonstrou que aqueles estudantes que apenas tiveram contato com produtos “verdes” em uma loja, lendo os rótulos e sendo informados das suas características estavam mais dispostos a emprestar dinheiro a outros do que aqueles que apenas contataram com produtos convencionais. Porém, um outro experimento revelou que os estudantes que acabavam comprando produtos “verdes” eram mais propensos a mentir e a enganar em outras atividades relacionadas com ganhar dinheiro.
A explicação para o fato é um fenômeno já estudado chamado de “permissão” ligado à imagem que cada indivíduo tem de si próprio e da sua “personalidade moral”. Assim, os indivíduos tendem a sentir-se mais motivados em adotar comportamentos mais éticos e sociais se o seu ego moral está ameaçado por uma transgressão recente. De modo inverso, é menos provável que questionem e esmiúcem implicações morais e ajustem comportamentos quando o seu ego moral estiver nos píncaros após uma boa ação. Isto significa que ações virtuosas podem conduzir à permissão para posteriores comportamentos anti-eticos ou associais.
Nina Mazar, uma das autoras do estudo, conclui dizendo que o fato de comprar “verde” não nos torna moralmente melhores em outros campos de atividade.
Aliás, outros estudos dedicados à avaliação de desempenho energético em edifícios “verdes” certificados, já haviam concluído que esses edifícios, apesar de dotados de tecnologias economizadoras, acabavam consumindo mais energia que outros não apetrechados em termos de eficiência energética. O motivo é comportamental já que os seus utilizadores, por se encontrarem em um edifício certificado, acabam adotando comportamentos mais permissivos.
para ler o estudo completo, clique aqui (em inglês)
com informações de TreeHugger, The Globe and Mail

outubro 12, 2009 10:54 am /
Como diz o estudo , existe uma tendência de compensação pessoal em se redimir de erros éticos levantando uma bandeira verde e vice-versa, mas eu acredito que este é o caminho da evolução da consciência humana nesse momento histórico. Não é nada fácil hoje em dia sermos enfermeiros de uma crise terminal e ao mesmo tempo parteiros de uma nova era, sem cairmos em constante contradição em nossa vida prática.
outubro 12, 2009 3:30 pm /
A responsabilidade é mesmo enorme – cabe a cada um de nós contribuir redirecionando nossas vidas e nossas profissões com consciência e senso de oportunidade!
outubro 16, 2009 12:38 pm /
Acho que isso também acontece com as empresas…só pq fazem um ato a favor do meio ambiente, em um momento esporádico, mts vezes se consideram redimidos de seus antigos e/ou futuros atos…temos ainda muito que evoluir!!!
outubro 16, 2009 2:04 pm /
Olá Andrêssa
Obrigada por seu comentário.
Além da armadilha moral, temos também que considerar o “Mito da Eficiência”, que apresentamos em http://ecohabitar.com.br/site/o-mito-da-eficiencia/
outubro 21, 2009 3:51 pm /
Vcs verificaram as credenciais dos autores do estudo?
As populações consideradas nessa “estatística” são muito pequenas para esse tipo de conclusão.
Em uma analogia grosseira, é como se dissessemos que quem opta pela Air France tem tendencias suicidas e menos consideração e responsabilidade com suas famílias… (lembre-se que o primeiro estágio de um suicida é o “denial”) =)))
outubro 21, 2009 6:15 pm /
Mais do que verificar as credenciais dos autores, é interessante ler o estudo completo (link disponível no post). A premissa inicial é de que as escolhas de consumo não expressam apenas preferências por preço ou qualidade mas também por normas, valores e crenças. No caso em concreto esses últimos fatores chegam a ser mais importantes e o ato de consumir funciona como uma tomada de posição.
O fenômeno da “permissão” (“Licence Phenomenon”) é algo já estudado em outros campos, não se tratando de criação dos autores. No final do estudo existe bibliografia sobre o assunto.
Quanto à analogia com a Air France: cadê o estudo?