Greenwash: chuveiro elétrico mais econômico?

Greenwash: chuveiro elétrico mais econômico?

Desde que as preocupações com o consumo de energia elétrica passaram a estar na ordem do dia, principalmente depois do apagão de 2001, o chuveiro elétrico tem sido tradicionalmente apontado por várias entidades do setor como o vilão do consumo doméstico. No entanto, em Abril último, foram apresentados à imprensa os resultados preliminares de um estudo que pretende demonstrar que, contrariando o pensamento predominante, o chuveiro elétrico é a opção mais econômica para o banho doméstico, se considerados os gastos conjuntos de energia elétrica ou gás mais a água. A repercussão na opinião pública foi grande e não apenas na imprensa especializada, já que o assunto teve honras de matéria no Jornal Nacional, da TV Globo.

O estudo, denominado “Avaliação do consumo de insumos em chuveiro elétrico, chuveiro híbrido, aquecedor a gás, aquecedor solar e aquecedor de acumulação elétrico” foi promovido pelo Grupo de Chuveiros da ABINEE e levado a cabo pelo CIRRA (Centro Internacional de Referência em Reuso de Água). A ABINEE é a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica e o CIRRA é “uma entidade sem fins lucrativos, vinculada à Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e à Fundação Centro Tecnológico de Hidráulica.”

Da leitura do relatório parcial apresentado (que pode ser acessado aqui) ficamos, no entanto, com algumas dúvidas. As mesmas que alguns especialistas também sentiram como se pode verificar em uma nota (¹) publicada pelo instituto Vitae Civilis sobre o assunto.

O instituto começa por apontar o erro metodológico do estudo, uma vez que “a comparação entre as diversas tecnologias não controla e não analisa adequadamente todas as variáveis que compõem o custo do banho“. Vejamos por quê:

Um dos argumentos apresentados para defender o uso do chuveiro elétrico seria o de que este seria mais econômico em função do menor consumo de água. Ora, segundo os especialista do Vitae Civilis, essa conclusão “seria possível se obtida com emprego de metodologia que permitisse a comparação de custos entre diferentes vazões para os diferentes equipamentos, entretanto isto não foi investigado no estudo, que utilizou equipamentos de vazões fixas. Ora, se o fator ‘consumo de água’ é o que explica a diferença de custo do banho entre o chuveiro elétrico e o aqucedor solar, e se o estudo fixa vazões menores para o chuveiro elétrico e maiores para todos os outros equipamentos, é claro que nesta configuração os outros equipamentos apresentarão custos maiores para um banho de mesma duração.”

“E mais, o estudo compara chuveiros elétricos de vazão baixa (média de 4 litros por minuto ao longo do estudo) com um aquecedor solar de vazão mais elevada (8,7 litros por minuto), sem sequer trazer uma nota de pé de página observando que existem no mercado chuveiros elétricos com vazões de entre 8 a 10 litros por minuto. Esta consideração seria importante porque, certamente, se o chuveiro utilizado no estudo fosse um destes, os resultados seriam bastante diferentes.” (…)

Não deixa de ser curiosa a escolha dos modelos de chuveiro utilizados. Para o chuveiro elétrico foi usado um modelo da Cardal denominado “compacta“. Para os outros tipos de chuveiro (aquecedor de passagem a gás, aquecedor solar e boiler) foi utilizado um outro modelo da mesma Cardal, este denominado Big Ducha (!). Ante a curiosa nomenclatura dos modelos, algum observador mais malicioso, sabendo quem encomendou o estudo poderia sugerir que o mesmo estaria viciado de início…

A nota do Vitae Civilis continua: “Uma observação adicional precisa ser feita em relação ao dimensionamento do sistema solar utilizado no estudo: pelos resultados apresentados, o sistema solar aparentemente foi sub-dimensionado para a vazão do estudo, o que provoca utilização excessiva do apoio elétrico do sistema.” (…)

“E por fim, mas não menos importante: sentimos falta no estudo de ao menos uma pequena observação sobre os impactos dos equipamentos sobre o setor elétrico e o meio ambiente, dimensões indiretamente captadas pela conta de energia paga pelo consumidor ao final do mês.”

“Para o setor elétrico os chuveiros elétricos instalados no Brasil representam por volta de 18% do pico de demanda do sistema e a aproximadamente 6 % de todo consumo nacional de eletricidade. Comentando este aspecto, o engenheiro elétrico Ivan Camargo, da UnB, afirmou à Folha Online em 16 de abril passado que “se os consumidores residenciais fossem cobrados da mesma forma que os comerciais, que são taxados ao criar picos de consumo, a conta de banho de chuveiro elétrico seria de cerca de R$ 0,44, mais caro que o sistema de energia solar” do estudo.”

“E para o meio ambiente, os investimentos em geração, transmissão e distribuição  de energia  elétrica, para atender ao pico da demanda do sistema representam obras como Jirau, Santo Antônio, Belo Monte e Angra III, entre outros desastres.”

Voltando ao método, o texto do relatório parcial informa que “foram selecionados 30 voluntários para o uso dos chuveiros. Esses voluntários foram divididos em 6 equipes de 5 pessoas. Cada equipe fará uso de todos os chuveiros e duchas através de um rodízio que ocorrerá a cada 3 meses” e aínda “é bom ressaltar ainda que não existe nenhum controle sobre o tempo de banho, maior ou menor abertura do registro de água ou qualquer outro fator que induza um banho diferente. Os voluntários são apenas divididos por grupos e, cada grupo, por determinado período, é obrigado a tomar banho no ponto x”.

Ora se é assim, para quê a divulgação de resultados parciais quando cada grupo de controle testou apenas um tipo de chuveiro? Se cada grupo testou apenas um tipo de chuveiro não existe aínda controle, certo? E por que razão não foram divulgados aínda os resultados do segundo trimestre?

O conjunto das inúmeras falhas metodológicas e a divulgação de resultados parciais levaram os autores da nota (¹) a declarar que a“divulgação da informação com a parcialidade apresentada pelo grupo de pesquisadores é uma postura incompatível com os preceitos éticos que devem nortear a pesquisa acadêmica e poderá levar a sociedade brasileira ao erro.”

Greenwashing” é uma expressão da língua inglesa que se tornou comum nos últimos tempos para designar os procedimentos de marketing utilizados por uma organização (empresa, associação, etc.) com o objetivo de dar à opinião pública uma imagem de sustentabilidade responsável dos seus produtos ou serviços. A sua tradução para português é um pouco complicada, no entanto, o seu sentido é fácil de ser entendido. Assim, da próxima vez que quisermos explicar o conceito, poderemos referir o caso dos chuveiros elétricos como um excelente exemplo da prática.

(¹) Os autores da nota são: Alexandre Salomão, Eng. Mecatrônico, GREEN-PUC-MG, Aurélio Souza, Engenheiro, Consultor GTZ-Eletrobrás, Carlos Faria, Eng. Mecatrônico, Diretor de Energia Solar da ABRAVA e Coord. da Iniciativa Cidades Solares e Délcio Rodrigues,, Físico, Diretor Executivo do Instituto Ekos Brasil, pesquisador associado do Vitae Civilis e Coord. da Iniciativa Cidades Solares

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