Etiquetagem de imóveis: uma questão de números

Etiquetagem de imóveis: uma questão de números

Por Maria Martha Nader in Forum da Construção

A primeira crise do petróleo (1973) teve o condão de despertar consciências mundo afora para a racionalização dos gastos com energia. O item “consumo” passou a fazer parte dos critérios a ter em conta ao comprar um carro. Seguiram-se os eletrodomésticos com o mercado substituindo as imensas Frigidaire por marcas européias menores e mais econômicas. Os consumidores passaram a prestar mais atenção nas etiquetas.

Quem, nos dias de hoje, compra uma geladeira sem dar uma olhada no adesivo colorido da sua eficiência energética? Quantas pessoas podem desprezar a informação dos quilômetros rodados por litro de combustível ao adquirir um carro?

De fato, nesta era de informação, o consumidor tem em quase todos os campos da atividade econômica acesso a uma cada vez maior e mais detalhada quantidade de elementos sobre o desempenho dos produtos que adquire.

Mas se isto é assim com os eletrodomésticos e com os carros(1), com os imóveis o cenário é outro.

abordamos aqui a dificuldade que os mais empenhados sentem quando procuram “sustentabilidade” nos imóveis, motivada pela dispersão de terminologia e pelo pouco rigor com que é utilizada.

Na verdade, apesar do interesse crescente que o assunto desperta (ou talvez por causa dele), o cidadão consciente que procurar por um imóvel sustentável pode enfrentar um processo bem mais difícil do que aquele outro que se fica por um imóvel convencional. Desprevenidos, os interessados deparam-se com uma avalanche de informações, certificações e sistemas avaliativos desencontrados. Alguns avaliam a sustentabilidade de um edifício ou mesmo de um condomínio por inteiro outros focam-se em elementos mais específicos como a eficiência energética ou o tipo de materiais “verdes” utilizados. O volume e a disparidade de medições e rótulos apresentados pode confundir, frustrar e até mesmo desencorajar os mais entusiasmados.

O nó da questão está no fato de que muitos incorporadores e construtoras, incompreensivelmente, negligenciam o fator “economia” do tripé da sustentabilidade(2), em favor do “ambiente”, mais marqueteiro e apelativo. Se o elo intrínseco existente entre a pegada ambiental de uma habitação e o seu “custo de posse”(3) fosse bem explicado e divulgado, os sistemas de construção sustentável ganhariam uma fatia de mercado muito mais expressiva. E no entanto, muitos dos fatores que contribuem para essa pegada sustentável são quantificáveis. É possível, portanto, expressar a extensão da sustentabilidade de uma casa através de uma linguagem universal e que todos entenderão: números.

Representar em números os valores do impacto ambiental de um imóvel em formato de gráfico colorido, do mesmo modo que se faz com eletrodomésticos, seria uma ferramenta preciosa para os consumidores. Os interessados em adquirir um imóvel eficiente disporiam de uma excelente ferramenta para comparar opções.

A boa notícia é que o Procel já apontou para 2012 a obrigatoriedade da etiquetagem das edificações comerciais, públicas e residenciais com o selo Procel Edifica que aliás já opera, desde 2007, em caráter provisório. O primeiro prédio deverá ser certificado neste ano, na forma de um estudo piloto. Apesar de se focar apenas na questão da eficiência energética, o processo de etiquetagem baseia-se na avaliação da edificação nas fases de projeto e construção. Este fato contorna um dos principais óbices apontados aos diversos sistemas de avaliação de eficiência: o de se basear em meras projeções de consumo e não no consumo real.

É assim provável que num futuro próximo ouviremos conversas como “baixei o consumo da minha casa para 110 kWh por m2. Acho que foi porque trocamos as lâmpadas”. Parece estranho, improvável? Talvez tanto quanto pareceria há alguns anos atrás escutar alguém falar na quantidade de calorias por colher de maionese ou em termos esquisitos como megahertzs, megapixels e megabytes.

(1) Em Novembro de 2008, no Salão Internacional do Automóvel de São Paulo, o INMETRO lançou o Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular, um guia para o consumidor sobre níveis de consumo de combustível. Com o início de funcionamento previsto para este mês de Abril de 2009, o objetivo do Inmetro/Conpet é fazer com que o consumidor possa escolher os modelos mais eficientes em consumo de combustível. Basta consultar a Etiqueta Nacional de Conservação de Energia (Ence) afixada voluntariamente pelas montadoras nos automóveis. Caso não encontre a etiqueta nos carros, o interessado poderá verificar as informações desejadas nas tabelas do Inmetro, divulgadas anualmente.

(2) Tripé da sustentabilidade – Para que seja considerado sustentável, um empreendimento deverá ser economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente correto.

(3)Custo de posse” é o conjunto de despesas regulares que o proprietário terá que arcar durante toda a vida útil do imóvel. (contas de água, luz, condomínio, manutenção, impostos, etc)

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