Quanto Custa uma Casa?: uma nova abordagem

Quanto Custa uma Casa?: uma nova abordagem

Por Maria Martha Nader in Forum da Construção

Pense bem: para o seu orçamento familiar, o que é mais relevante, o preço do imóvel ou o conjunto dos seus custos mensais? O que pesa mais no bolso, as despesas iniciais ou os futuros encargos fixos?

“Constrói-se para vender e não para operar (…) e o consumidor, por sua vez, não tem consciência do custo que terá pela frente”.

Vanderley John in Revista Finestra out/nov/dez 2008

O recente terremoto financeiro mundial tem forçado muitas pessoas a repensar conceitos que nos últimos anos se tinham enraizado fundo em suas vidas. A crescente banalização do crédito, a valorização do real com o decréscimo de preço dos bens importados, uma certa cultura de consumo fácil e desperdício pareciam de súbito tornar bem acessíveis os sonhos de consumo de muitos e levaram muitas famílias a adotar padrões de consumo e modos de vida desajustados. No mercado imobiliário, lançamentos semanais de condomínios/clube com spas orientais, espaços gourmet e centros de meditação encheram o chão de nossas ruas com panfletos em papel couché. O choque com a realidade tem sido violento e assistimos diariamente a especialistas em finanças de diversos sites e programas de TV recomendarem a reavaliação do valor do dinheiro e cuidados extras com endividamentos e despesas. Estamos, portanto em um momento ideal de fazer mudanças e mudar perspectivas. Concentremo-nos, então, na habitação. Qual o custo de uma casa? Quanto custa, realmente, um apartamento?

O tradicional método de avaliar o custo de um imóvel baseia-se no seu preço final ou, quando muito, no custo por m2. Todos já escutamos de alguém que está construindo, comprando ou cogitando comprar uma casa ou apartamento, na altura de comparar possibilidades, ficar apenas na análise desses poucos elementos. No entanto, e excetuando os raros casos em que não há recurso a crédito, esses são dos números menos relevantes a considerar. Muito mais importantes são os muitos fatores ligados com os custos mensais associados ao fato de possuir e habitar um imóvel. Serão as despesas relacionadas com a prestação do financiamento bancário, a taxa de condomínio, os serviços públicos (água, luz, telefone), impostos e taxas municipais, seguros, e as cada vez mais indispensáveis tv a cabo e internet que terão que ser consideradas porque serão elas que virão mensalmente por todo o tempo de vida no imóvel e, portanto, exercem forte peso na sua viabilidade futura.

Deste modo, investir em uma casa não é apenas uma questão de “será que tenho o suficiente para o fazer” mas também, e talvez mais importante “será que num futuro próximo terei todos os meses o suficiente para conseguir mantê-la”.  Não prestando a devida atenção no problema os futuros proprietários poderão tomar decisões negligenciando aqueles custos mensais não tão evidentes quanto os do pagamento do financiamento, aumentando o risco de adquirir um imóvel que um dia não conseguirão manter.

Cuidado, portanto, com aquele sobrado enorme cheio de telhados que você descobriu a preço de banana ou com a amplidão das áreas do projeto bárbaro para aquele terrenão que você herdou. Os custos com aquecimento, refrigeração e manutenção de todo aquele espaço mês após mês, ano após ano tornam-nos muito mais caros em termos absolutos que aquele outro imóvel que você logo descartou por ser menor, “só” ter três banheiros ou custar mais 3.000 reais.

É, portanto altura de mudarmos o jeito como enxergamos o conceito “custo” de um imóvel de modo a que este se adeqüe mais à realidade e nos proteja contra falsas percepções de valor que poderão revelar-se desastrosas no futuro.

Assim, com tantas interrogações ligadas aos custos mensais de propriedade, principalmente na atual atmosfera de incerteza financeira, possuir um imóvel que reduza o risco de esses custos um dia se tornarem insuportáveis é, com certeza, uma solução cada vez mais desejável.

A opção por uma abordagem sustentável na arquitetura, construção ou reforma de imóveis é com certeza o caminho a seguir. Projetos inteligentes, com otimização energética e recurso a tecnologias de uso racional de água e eletricidade, terão um custo similar ao dos projetos e tecnologias convencionais, com a vantagem de gerar por décadas economias nas contas de água e eletricidade. Tomar em consideração variáveis como o microclima do local, a exposição solar e o regime de ventos permitirá a utilização de estratégias passivas de aproveitamento de recursos o que diminuirá consideravelmente os encargos com aquecimento e refrigeração. Para além disso,  a conscientização do mercado sobre os reais custos dos imóveis irá depreciar aqueles cujos encargos mensais sejam maiores o que, aliás, já é detectável em alguns condomínios caros cheios de equipamentos de lazer e que faziam furor até há uns meses atrás. Por extensão, imóveis com custos controlados de manutenção tenderão a valorizar-se.

Deste modo o impacto positivo da mudança de perspectiva quanto ao real custo de um imóvel será duplo. Por um lado os proprietários terão menos chances de se acharem vivendo em imóveis que não conseguem manter e por outro, em um mercado lotado de edifícios gastadores, o imóvel econômico sairá valorizado.

Responda agora: quando planejar o seu novo imóvel, o que será mais decisivo para si, o preço ou o conjunto dos seus custos mensais?

 

Fontes consultadas:

John, VanderleyCinco banheiros prá quê? Apresentação-depoimento no II Fórum Nacional da Sustentabilidade da Construção Editora Abril
Kaufmann, Michelle, Redifining Cost, in http://www.mkd-arc.com/ (inglês)
Roaf, Sue, Ecohouse, A Casa Ambientalmente Sustentável, Ed. Bookman

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